Estimular a integração social dos portadores de Síndrome de Down é um trabalho para a vida inteira. É o que defende Cleoni Ferreira a diretora da escola Juliano Varela, uma ONG especializada no atendimento aos portadores desta deficiência. E para ela, um ponto fundamental nesse sentido é o acesso ao mercado de trabalho. “É ótimo para eles. Assim, conseguem sair desse nosso mundinho”, relata.
Desde os 17 anos, os alunos da escola passam por oficinas de capacitação para os serviços de limpeza, secretariado, auxiliar de cozinha, entre outras atividades que os prepara para, no ano seguinte, serem encaminhados às empresas parceiras da escola. Agora, alguns estudantes vão poder adicionar mais uma habilidade aos seus currículos. É que sete alunos participam no Sebrae do minicurso de Confeitaria para Portadores de Necessidades Especiais, até sexta-feira, 3, durante a Semana do Panificador, que acontece em Campo Grande.
Ministrado pelo instrutor Neilson Braga, do Senai, o curso com duração de 12 horas ensina os participantes a fazer pequenos pratos para aumentar seu repertório na cozinha: o pão de queijo, o casadinho de milho e o sablê de mesa, uma espécie de biscoito amanteigado. Esta não é a primeira vez que Neilson trabalha com uma turma de alunos especiais. Nos anos anteriores, ele conta que já deu aulas de culinária para surdo-mudos e cadeirantes. “Todo ano a gente faz um curso de capacitação. O método é diferente, as apostilas também. Mas vale muito a pena”.
A legislação brasileira determina às empresas, com 100 ou mais empregados, uma cota de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiências. As aulas de confeitaria vão ser mais uma forma de abrir as portas do mercado de trabalho para este grupo. No curso, o instrutor se encarrega de ralar o queijo e quebrar os ovos, e os alunos aguardam a oportunidade de sovar a massa. Um cuidado que os estudantes não vão receber quando estiverem empregados. “Para adentrar o ambiente empresarial, o aluno tem que estar apto a competir como qualquer outro candidato. As empresas procuram um funcionário, não importa sua condição”, ressalta a gerente administrativa da escola, Jussara Weber.
Algumas empresas procuraram a Juliano Varela para buscar parcerias na contratação de trabalhadores com síndrome de down. Muitos atuam em atividades manuais, em locais como supermercados, frigoríficos e fábricas. “Ninguém passa a mão na cabeça deles por serem especiais”, diz Cleoni Ferreira. “Se eles têm problemas, são punidos. Para se ter ideia, já tivemos dois contratos cancelados porque não deram certo”.
Miguel Ângelo Silva, portador de down, tem 23 anos, vai sozinho para a escola e para o trabalho de empacotador em supermercado, onde atua há cinco anos. “É meu primeiro emprego, com ele ajudo em casa”, conta. Para a psicóloga da escola, Kátia Mendonça, a inserção no mercado de trabalho não é apenas um suporte econômico, mas principalmente, colabora com a autoestima dos alunos. “O Miguel tem uma autonomia que muitos não têm, isso cria um senso de realização pessoal”, explica.
A auxiliar em recrutamento e seleção do Supermercado Comper, de Campo Grande, Marcela Gonçalves, conta que as exigências são as mesmas para os demais funcionários. “E portadores de necessidades educacionais especiais as cumprem à risca, dão muito menos trabalho que os funcionários não-deficientes”, completa.
Para Cleoni, toda empresa pode receber um trabalhador com Síndrome de Down, desde que receba antes a informação necessária. Trabalho maior, segundo Jussara Weber é convencer as próprias famílias. “Muitos recebem pensão do governo devido à doença. No entanto, se passam a ter um emprego, esse benefício é cortado. Nosso trabalho é mostrar o valor dessa experiência para seu desenvolvimento”.
A Semana do Panificador é realizada pelo Sindepan (Sindicato da Indústria da Panificação e Confeitaria de MS), com apoio do Sebrae, Senai, SESI, CDL Campo Grande, Fiems e Prefeitura de Campo Grande. Integrando as atividades acontece o curso de Confeitaria para Portadores de Necessidades Especiais de 31 de agosto a 3 de setembro, no Sebrae, das 14h às 17h. A participação é gratuita.